“Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”, dizia o Coelho Branco, tirando um relógio do bolso do colete, olhando as horas e saindo em disparada. Pessoas assim nervosas, sempre correndo contra o tempo, como o personagem de Lewis Carroll em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, sempre existiram. Mas, com certeza, há 154 anos, quando a obra foi publicada, não eram tão numerosas como agora. De lá para cá, a Síndrome do Coelho de Alice vem se alastrando epidemicamente e hoje há um grande contingente de coelhos brancos, apressados e estressados, por toda parte do planeta.

O mundo hiper acelerou. A tecnologia, que deveria proporcionar descanso a quem vive no século 21, acabou criando mais tempo para se fazer mais e... mais. Produzimos e consumimos em escala frenética. Sobrecarregados por múltiplas tarefas e estímulos excessivos, esgotamos as horas de lazer com os olhos grudados em aparelhos eletrônicos, bombardeando de impulsos elétricos intermitentes nosso sistema nervoso. Como resultado, um surto mundial de ansiedade e depressão. E o Brasil, segundo a Associação Internacional de Gestão do Estresse (Isma, por sua sigle em inglês), só perde para o Japão em número de estressados. Pesquisa recente da instituição concluiu: 70% dos brasileiros sofrem de exaustão.

Porém, se o número de estressados cresce, o de quem encontrou seu antídoto para esse mal da modernidade em uma tradição milenar também. Milhões de pessoas, em todos os continentes, descobriram na meditação um caminho para o bem-estar físico, mental e emocional. Uma das técnicas mais consagradas é a meditação transcendental, técnica que chegou ao Ocidente, a partir dos anos 1950, por meio do físico e sábio indiano Maharishi Mahesh Yogi, e não levou muito tempo para conquistar uma multidão de adeptos, inclusive famosos, como os Beatles.

Marcus Ráime Nery, analista administrativo da PUC expõe alguns motivos para a ampla disseminação de uma prática de tempos imemoriais pelo vertiginoso mundo moderno. “É uma técnica extremamente simples, que não demanda nenhuma crença ou experiência anterior. E você pode praticar em qualquer lugar. Não houve problema em encaixar à minha rotina.” Marcus aprendeu a meditação transcendental (MT) há 27 anos, quando se preparava para o vestibular de Direito e conta que meditou dentro da sala de aula, minutos antes do início das provas. “Fiquei bem relaxado e confiante, foi algo muito efetivo mesmo. Com a MT, a mente fica mais esperta, mais viva, você percebe o crescimento da capacidade cognitiva.”

Comprovação científica

Facilidade e simplicidade somadas à efetividade. Essa parece ser a fórmula do sucesso da meditação transcendental. Seus efeitos para a saúde física, mental e emocional são comprovados por mais de 650 pesquisas científicas, realizadas por universidades como Harvard, Princeton, Stanford, entre outras. Boa parte desses estudos (340) foi publicada como artigo de revisão por pares, passando por um processo rigoroso para atestar sua qualidade.

O respaldo científico da meditação faz com que o cardiologista Roberto Botelho, diretor do Instituto do Coração do Triângulo Mineiro, não hesite em prescrevê-la a seus pacientes. Ele conheceu a técnica em uma viagem à Índia. “O que me chamou a atenção foi, em primeiro lugar, o nível de produtividade das pessoas que a praticavam.” Em seu canal no YouTube, ele relata que, ao voltar ao Brasil, aprendeu a meditar e passou a reunir dados sobre a MT. “O verbo acreditar não participa do meu vocabulário. Então, por que eu pratico? Eu experimentei e percebi a sensação, me monitorei e fui buscar a coleção de informações científicas estruturadas. Quando eu tenho um estudo randomizado, que trouxe um indicador duro, redução de evento pesado, como morte por enfarte e derrame, com essas evidências, mais a experiência própria, eu tenho de recomendar como prescrição médica.”

Menos ansiedade, mais paz

A instrutora de meditação transcendental Teresa Castilho, meditante desde os 13 anos de idade, garante: “Quando você pratica a MT, o cérebro produz ondas alfa, indicando relaxamento profundo, o que promove o equilíbrio homeostático, para que o corpo possa se reparar e se reequilibrar. Há comprovação científica de que ela aumenta nossos níveis de serotonina, endorfina e dopamina, enquanto reduz o cortisol. A prática regular neutraliza os efeitos das tensões e do estresse, causadores de doenças cardiovasculares, entre outras”.

As doenças cardiovasculares são a maior causa de mortes no mundo. No Brasil, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, elas matam mil pessoas a cada dia. Número que poderia cair drasticamente com medidas preventivas, como a prática da MT, observa Teresa. “Em 2013, a Associação Americana do Coração passou a recomendar a meditação transcendental como a única técnica que de fato reduz a pressão arterial e o risco e morte por enfarte ou acidente vascular cerebral.”

Mais do que as evidências científicas, a experiência de quem pratica a meditação transcendentral comprova seus benefícios, até mesmo para quem é do tipo São Tomé. “Você pode ser 100% cético que ela funciona do mesmo jeito”, garante Teresa. É o caso de Maria Luíza Mendonça, professora e pesquisadora aposentada da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG. “Eu fui meio que conferir pensando: ‘Será que é isso mesmo?’ E fiquei muito surpresa de cara. Você começa a meditar e, imediatamente, nota sua respiração mais lenta. Algumas vezes, medito 20 minutos e não vejo o tempo passar. A sensação é que fechei e abri os olhos em um piscar mais demorado.”

Maria Luíza aprendeu a MT há 29 anos e nota que, com a prática, adquiriu mais foco e tranquilidade. “A gente aprende a respirar fundo, a fazer uma coisa de cada vez e também a ser mais compassiva. Adquire um certo distanciamento emocional dos problemas, começa a olhar para as coisas com menos ansiedade e as situações indesejáveis já não te atingem muito. Você percebe isso até no trânsito.”

Resultados vêm rápido

A técnica de meditação transcendetal só pode ser passada por um instrutor certificado pela Associação Internacional de Meditação (SIM). É ensinada em apenas cinco dias e não é preciso esperar muito para sentir os resultados. Apenas quatro dias após aprender a MT com a instrutora Teresa Castilho, a odontóloga Luciana Machado de Siqueira já se sentia melhor. “Melhorou minha qualidade de sono. Eu vinha acordando várias vezes na noite e depois ficava muito tempo acesa. Comecei a meditar e já estou dormindo bem melhor. Também senti que estou menos ansiosa, com maior clareza mental e bem disposta.”

Luciana surpreendeu-se com a simplicidade da técnica. “Sempre achei que meditar era uma coisa muito complicada, pensava: ‘Nossa, deve ser difícil demais’. Mas achei muito fácil, simples e natural. Você senta ali, em uma posição confortável, fecha os olhos, segue as instruções, e vai embora. No primeiro dia, me senti tão leve que parecia estar flutuando. É muita quietude, muita paz. Acho que todo mundo deve experimentar essa sensação.”

Pois é, se há alguns anos muitos acreditavam que meditação era coisa para esotéricos e bichos-grilo, tipo a lagarta de Alice, hoje a meditação transcendental desfaz o mito. Como demonstram os estudos científicos, a MT proporciona, sim, muita paz, mas também maior eficiência e produtividade, coisas de coelhos brancos.