Muitas das nossas memórias estão associadas aos sabores provados e que nos conquistaram quando éramos crianças. Existe até o termo “gostinho da infância”, muito usado em situações que nos remetem às fases iniciais da vida e que trazem certo conforto. Cheirinho de bolo sendo assado no forno, o bolinho de chuva que acalenta os dias nublados, o brigadeiro servido para curar alguma angústia momentânea são exemplos clássicos dessa memória afetiva que faz parte do repertório de todos os seres humanos.

No entanto, quando a criança desenvolve sobrepeso já classificado como obesidade, começa a preocupação dos pais com relação à saúde dos pequenos. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) evidenciou que 15% das crianças brasileiras estão enquadradas no perfil de obesas, e 8% dos adolescentes se encontram nessa mesma categoria. A pesquisa também constatou que 8 em cada 10 adolescentes continuam obesos na fase adulta.

Além de suscitar uma série de questões sobre autoestima e acender o alerta para casos de bullying, a obesidade é extremamente preocupante pelo desequilíbrio físico associado a ela. Conforme explica a endocrinologista Marília Gabriela Zanier Gomes, o excesso de peso na infância está associado à alteração de colesterol (deslipidemia), à pressão alta (hipertensão), à gordura no fígado (esteatose hepática), ao aumento de casos de diabetes,  problemas articulares e crescimento. “O problema, quando não enfrentado na infância, só se agrava na fase adulta”, alerta.

Conforme orienta a médica, é preciso que os pais busquem auxílio junto a um especialista para conseguir identificar as causas do sobrepeso. Geralmente, o trabalho de diagnóstico é realizado pelo pediatra, em parceria com um endocrinologista. Marília explica que estudos já comprovaram que a obesidade pode estar associada a alterações genéticas, principalmente quando tal alteração se manifesta em um gene só (monogênica).

Outra causa fisiológica para a obesidade também pode estar presente na alteração do sistema endócrino. “Todas as alterações devem ser investigadas pelos especialistas que vão avaliar a curva de crescimento, de ganho de peso e demais informações colhidas pelos exames, para mapear se há alguma causa genética ou endocrinológica associada. No entanto, apenas 10% dos casos de obesidade na infância estão vinculados a alguma disfunção corporal. A maioria trata-se da combinação de maus hábitos alimentares e sedentarismo”, alerta.

Uma abordagem psicológica sobre a obesidade

Além de atuar no meio acadêmico e clínico, a psicanalista Ana Carolina Moreira Nogueira oferece suporte a pacientes que recorrem à cirurgia do aparelho digestivo e de obesidade. Sua área de trabalho está muito próxima aos conflitos que envolvem a batalha contra a balança. “Acho fundamental que se combata na sociedade a ideia preconcebida de que toda pessoa obesa é vítima de desleixo, de falta de cuidado consigo. Isso é uma forma horrível de lidar com um problema que tem fundo psicológico fortemente associado”, diz.

Conforme analisa a psicanalista, a alimentação é a primeira relação de troca que os seres humanos experimentam quando nascem. É no seio materno que começamos a nos abastecer, não apenas de nutrientes, mas de conforto e acalento, em um mundo totalmente desconhecido. A amamentação é um ato de amor entre mãe e filho, portanto é tão estimulado pela área médica, que já comprovou o quanto seus benefícios ultrapassam os fatores nutricionais.

“O que acontece em grande parte dos casos é um erro na primeira infância, que pode resultar em reflexos profundos para a vida toda. O erro a que Ana Carolina se refere é a associação do choro da criança à necessidade de se alimentar.

“Quantas vezes não vemos alguém orientar uma mãe que o choro do bebê é vontade de mamar? Infinitas vezes, não é mesmo?”, indaga. Ao invés de buscar as causas para aquele choro, que podem ser as mais variadas possíveis, as pessoas recorrem à amamentação para cessar o choro, descreve a psicanalista. E, mesmo não sendo uma ação feita com má intenção, pode representar uma associação confusa na mente dessa criança, que passa a vincular a comida ao conforto necessário diante das dificuldades que aparecerão na vida.

A psicanalista explica, ainda, que essa associação de conforto diante da comida pode se estender para a vida inteira e deixar marcas profundas e difíceis de serem identificadas. É preciso que a pessoa, com a ajuda de um profissional, comece a ter acesso a uma parte da sua vida que já está totalmente cristalizada, para que se mude a dinâmica dessa pessoa. “A angústia é confundida com fome, o desamparo se traduz em fome, a ansiedade é contida com o ato de se mastigar. As pessoas, em todas as idades, passam a aplacar sensações desagradáveis com a comida.”

A obesidade infantil, quando descartada a natureza física, metabólica ou hormonal, deve ser entendida como um sintoma de angústia que está representando algum tipo de sofrimento no corpo da criança. Esse olhar é extremamente cuidadoso e amoroso, e tem o poder de transformar a relação que a criança vem estabelecendo com a comida. “Todos os pais que têm essa compreensão passam a olhar a relação da criança com a comida de forma mais humana, tentando ajudá-la nas suas angústias”, analisa a especialista.

Quando essa dinâmica de compensações é revertida para o enfrentamento sadio das dificuldades, com a ajuda dos pais na infância, e depois com as próprias forças, é possível ver naturalmente uma mudança de foco, que sai da comida e se volta para outras áreas da vida. “Naturalmente, essa criança passa a ser mais saudável física e emocionalmente”, conclui Ana Carolina.

Dicas: alimentação saudável da infância para a vida!

- Consulte um nutricionista para elaborar um cardápio ideal para toda a família. A criança terá resultados melhores se todos seguirem a mesma dieta;

- Troque sobremesas calóricas (à base de leite condensado e creme de leite, por exemplo) pelas derivadas de frutas;

- Ofereça muito líquido, mas não durante as refeições;

- Troque o suco industrializado pelo natural. Se possível, consuma mais a fruta do que o suco;

- Evite frituras e alimentos processados (industrializados);

- Troque queijos amarelos por queijos brancos como cottage, ricota e frescal;

- Procure montar a lancheira da criança para ter o controle do que ela vai consumir na escola.