Ana Carolina Medeiros (37) mudou-se com a família para o interior de Goiás quando tinha 7 anos. A troca de cidade, a distância dos amigos e tudo aquilo que seu pequeno mundo comportava à época fez com que a menina desenvolvesse um hábito inusitado: o de arrancar os próprios cabelos.
 
A atitude pode até ser considerada estranha e atípica para a grande maioria das pessoas visto que o problema atinge apenas 2% da população. No entanto, a ação aparentemente inofensiva deve ser encarada com seriedade, pois, segundo a dermatologista Anna Cecília Andriolo, essa conduta de puxar os fios está incluída, inclusive, no capítulo de Transtornos Obsessivo-Compulsivos (TOC).

Por cerca de quatro meses, Ana seguiu uma rotina de assistir às aulas do primeiro ano do ensino fundamental sempre arrancando seus próprios fios de cabelo. “Eu me lembro de quando levei um grande susto na escola. Como meu cabelo era comprido, tinha formado um emaranhado de fios logo abaixo da carteira. Fiquei com vergonha dos colegas verem o que eu tinha feito e que eles se dessem conta do tamanho do estrago”, conta.
 
Certo dia, ao olhar a cabeça da filha com mais atenção, a mãe notou falhas espalhadas pelo couro cabeludo. Preocupada, marcou imediatamente uma consulta com uma dermatologista com receio de que fosse alguma doença no couro cabeludo. Quando questionada pela médica sobre o porquê das falhas, a menina, surpreendendo a mãe, respondeu que estava arrancando os próprios fios. “Minha mãe pulou da cadeira assustada e me perguntou por que eu estava fazendo aquilo. Só consegui justificar dizendo que sentia vontade”, recorda.
 
Na época, o tratamento foi relativamente simples e envolveu o uso de uma solução tópica para estimular o crescimento dos cabelos, além de consultas com uma ludoterapeuta, que passou a acompanhar de perto o desenvolvimento emocional de Ana Carolina. Com o passar do tempo, a paciente foi se enturmando na nova escola, fez amizades na vizinhança e passou a gostar da nova cidade, sentindo-se aceita.
 
Felizmente, neste relato, a boa adaptação fez com que o hábito de arrancar os fios sumisse gradualmente. Mas é preciso um alerta para o problema, conhecido por tricotilomania, que pode gerar muitos desgastes e até traumas emocionais.
 
Tricotilomania
 
De acordo com a dermatologista Anna Cecília Andriolo, o hábito de arrancar cabelos, conhecido cientificamente por tricotilomania, é uma condição psiquiátrica, muitas vezes, debilitante, podendo causar recaídas que levam à perda de cabelo e a um desgaste emocional importante. O problema é caracterizado pela retirada repetitiva dos próprios fios, o que leva a falhas no couro cabeludo.
 
Se você se identificou com o quadro, calma! Não precisa arrancar ainda mais os seus cabelos. Existe cura para o problema e o sucesso depende única e exclusivamente do seu autocontrole em resistir a puxar os cabelos.
 
Tratamento

 
Muitas vezes, relata a médica, o paciente consegue perceber sozinho que está arrancando os cabelos e tenta parar, mas, em grande parte dos casos, não tem êxito. "O ato causa grande sofrimento ao paciente, pois ele sabe que há algo de errado imbuído naquela vontade de puxar os fios continuamente”, diz.
 
A orientação profissional é para que familiares ou mesmo o próprio paciente procurem ajuda especializada. São indicados para o tratamento clínico um dermatologista e um psiquiatra ou psicólogo, para poderem conduzir a pessoa em busca de respostas para essa desordem comportamental. Quando necessário, é possível recorrer ao tratamento medicamentoso recomendado pelo psiquiatra. “Quando não tratada, a tricotilomania pode levar a uma disfunção psicossocial importante”, alerta Anna Cecília. “Superar a fase de negação, entender que não se trata apenas de um mau hábito, mas sim de um sintoma de que algo está emocionalmente errado, é um passo muito importante para a cura. Aceitar a condição e buscar tratamento adequado é o ideal para esse perfil de paciente”, alerta a dermatologista.