No fim da manhã desta quarta-feira (17), no segundo dia da 28ª Caminhada Ecológica, os 29 atletas - 25 homens e 4 mulheres - que estão participando do projeto fecharam 38km fazendo o alongamento num local inusitado - ao lado de um curral, embaixo da frondosa sombra de uma mangueira, com outras árvores frutíferas ao lado e cachorros, mais ao fundo, latindo -, um pouco antes do Rio Uru, na divisa de Itaberaí com a Cidade de Goiás, onde fecharam a jornada à noite. Para alguns atletas, o espaço trouxe a recordação das origens goianas, de um pouco da chamada goianidade.  

Alguns, mesmo no tempo e na concentração do alongamento - fundamental para um atleta - observavam ao redor e curtiram o momento. Isso após largarem no trevo de Taquaral, percorrerem cerca de 40km - passaram por Itaberaí, seguiram e voltaram para o almoço servido na sede da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), antes de voltarem ao percurso, à tarde.     

Adão Dias, que fez a Caminhada Ecológica em 2004 e voltou ao projeto 15 anos depois, lembrou da infância vivida no interior goiano. Nascido em Pilar de Goiás, Adão Dias conta que se recordou da chamada tapera - designação dada às casas velhas na zona rural -, do gado no curral, das laranjeiras, das galinhas no terreiro. Passou, à mente dele, os tempos em que morava 18km de uma "currutela" e, para chegar à casa da família, tinha de caminhar. "Certa vez, eu estudava em Goiânia. Houve uma greve nas escolas e tive de voltar para casa. Eu me lembro que tive de caminhar 18km, junto com o meu avô, com a malas nas costas. Resistência. Acho que estava começando a ser atleta nessa época. Aquilo moldou um caráter de resiliência em mim", explicou o atleta. 

Se as lembranças de Almir evocam traços interioranos e da zona rural, para o baiano Elielson Alves da Silva, de 35 anos e o caçula, entre os 25 homens, da Caminhada Ecológica, o que ele vê como traços da goianidade está explicado na espontaneidade e na solidariedade dos moradores em Goiás. "Na estrada, perto de Inhumas, uma mulher nos ofereceu laranjas. Um saco de laranjas. Não cobrou nada por isso. Disse que fazia questão", contou o atleta, natural de Central Bahia. Ele também viu quando outro vendedor, no percurso, ofereceu pedaços de melancias aos atletas. "Ter a recepção do povo é muito bom. Faz a gente seguir", comentou Elielson, ressaltando o quanto importante participar do projeto. "As pessoas gostam da gente. Acho que acreditam muito na gente. Nos vêem como alguém que está dizendo aquilo que sentem." 

Se a percepção de Elielson é a da hospitalidade e da espontaneidade, o aparecidense Reginaldo Alves de Lima, de 40 anos, nutre um ar de saudosismo no percurso. "Rapaz,  
eu passei por vários córregos e rios, até agora. Eu me lembrei do tempo de molecote, da época em que tomávamos banho em qualquer rio, córrego, ribeirão. Hoje, estão ficando poluídos. Não se vê mais meninos com essa liberdade e oportunidade", afirmou Reginaldo, que é estreante e vê na Caminhada Ecológica uma bandeira pela vida. Ao mesmo tempo, ele também percebeu a receptividade dos moradores, seja nas cidades como em algumas casas de beira de estrada.  

Para Sebastião dos Reis Santos, o traço mais marcante, na Caminhada Ecológica, é a passagem pela Serra Dourada, antes da chegada à Cidade de Goiás, onde Sebastião mora. "Não tem nada mais bonito, mais goiano, do que a nossa Serra Dourada. Sinto algo diferente quando estou no meio dela. É onde treino", frisou o atleta, citando aquele relevo, importante à hidrografia goiana - separa bacias hidrográficas - como algo "muito goiano."  

Sebastião, único representante da Cidade de Goiás e já na 15ª participação no projeto, vê outro motivo na 28ª Caminhada Ecológica. Fazê-la é uma forma de homenagear a mãe, Eurídia Ana de Oliveira, que morreu há cerca de sete meses. Por isso, ele e o atleta João Batista Pereira de Souza, que perdeu o pai há menos de um mês, fazem a Caminhada com uma faixa preta no braço esquerdo, em sinal de luto. Ao contrário de Sebastião, a atleta Lorena Thallita Gaspar, de 34 anos e caçula da 28ª Caminhada Ecológica, festeja nesta quinta-feira o aniversário do pai, Altino Gaspar, que ficou em Goiânia e fará 63 anos.          

Como se fosse uma procissão, os atletas entraram pelas ruas da Cidade de Goiás no início da noite desta quarta-feira (17). Recebidos na entrada pela prefeita Selma Bastos, foram cortando ruas com o representante local, Sebastião dos Reis Santos, à frente. Fecharam o dia com recepção no mercado municipal. Estavam exaustos, mas aproveitaram o dia para conhecer alguns dos traços da goianidade no entorno de Vila Boa. Caminharam junto com o pôr-do-sol, subiram escadas da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no Povoado de Areias, para um pequeno momento de meditação e oração, passaram ao lado do mirante da cidade e foram cortando a exuberância da Serra Dourada, que se abria ao lado para recebe-los.   

Antes, repetiram a tradição da parada na casa de Maria de Lourdes Rodrigues, a Maria do Uru, madrinha da Caminhada Ecológica que morreu em 2017 e deixou o legado da hospitalidade com os atletas, chamados por ela de “beija-flores”. Puderam fazer o lanche da tarde com muitos biscoitos, bolos, frutas, doces e os familiares de Maria do Uru fizeram ritual de jogar pipocas sobre os atletas, ao redor da mesa na área que liga a cozinha ao quintal. A família garante fazer questão de manter o legado deixado pela mãe e, desde 2017, deixa aberta a porta da casa, próxima à divisa de Itaberaí e a Cidade de Goiás, para os participantes da Caminhada Ecológica. 

A 28ª Caminhada Ecológica é realizada pelo POPULAR/Grupo Jaime Câmara (GJC), com patrocínio de Unimed Goiânia. O evento tem apoio de Detran/Governo de Goiás, Belcar, Bio Resíduos, Fast Açaí, Hospital Anis Rassi, Unifan, Sesi, Saneago, Casa da Nutrição Suprimentos e Probiótica. O apoio logístico é do Batalhão Rodoviário e do Corpo de Bombeiros de Goiás.